FOR US THERES IS ONLY ONE SEASON. THE SEASON OF SORROW



Oscar Wilde


domingo, 26 de outubro de 2008

“Poderias mergulhar como só um bloco no nada para onde vão os mortos: consolar-me-ia se me legasses as mãos. As tuas mãos subsistiriam isoladas, separadas de ti, inexplicáveis como as dos deuses de mármore que se tornaram a poeira e cal das suas próprias sepulturas. Sobreviveriam aos teus actos e aos miseráveis corpos que acariciaram. Não mais serviriam de intermediários entre as coisas e ti; elas próprias seriam transformadas em coisas. Voltariam a ser inocentes, pois já não estarias presente para delas fazer tuas cúmplices (…) [já não me deixariam] cair como uma boneca partida(…) mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas(…)”

(Marguerite Yourcenar in Fogos, p. 52)






















Cortejar a morte
Morte branca polida em cinza

Adular-te num papel resignado de simples leitora
como voyeur e como masturbadora
enobrecer o ignóbil aparelho do suplício

Queria ser Apolo e vejo-me em Dionísio
abraçar a noite por estar cansada do dia
cansada por não poder abraçar o mundo

Em silêncio a cumplicidade se faz raiz
como cartas quotidianas. como a morte da vida




Fazer-me em rigor de afectos
porque toda a terra é uma prisão
revirar vidas para ser força de ventre

Sinto-me a sair
a parir para dentro

E volto ao tempo
tempo dado
não foi o tempo de juntar os malafeitos
torna-se tudo tão imperfeito do real

E vejo como presa estás
ao desencaixe de viver angustiantemente
palavras sem gesto





quarta-feira, 22 de outubro de 2008



Filha da terra assim sou. de húmus me faço e componho
realidade em vasos de seiva. crisálida. à transformação dos dias



Esta realidade de mim. é necessidade e sem excepção. tão claramente quanto não sinto
a consistência do papel. através da caneta e do aparo



ninfa dos lepidopteros. cabelos nevados. aurelianos



mas sou trinquenta língua
que cravo. travo
do tudo o que digo e não digo. me vago e me perco



vergôntea do halo da nova Jerusalém.
que espera exausta sob o sol do meio dia
junto ao poço de Jacob




Humility - Wim Mertens
*Fotos de P. Mascarenhas

Montagem de sma

sábado, 18 de outubro de 2008


A serenidade apazigua a turbulência nesta distância em que o horizonte é mais definido. na certeza que nada tem que se assente. na ilha penso porque se quer tanto. quando o olhar não encontra amparo. nem qualquer alvo que se estreite.










e chega a fria claridade depois do turbilhão do coito. onde já não há espaço para a regressão virtual. quero-me solta sem apegos deste tipo. que me iludem e desviam da lucidez de que a felicidade é obra.














no medo que atormenta a lua, vejo o mar que amadurece no fim do rio. que permite o dialecto da ternura. em onda sem submissão e sem revolta. e pensar se a vida se resume a este movimento convulsivo.













no mais infinito pequeno. no menos infinito grande. nem todos os dias são dias passados. e sempre haverá nos restos um porto de abrigo. que tu voltas sempre.








“A vida tem o seu quê de criminoso(…)”

(Sandor Marai)












quinta-feira, 16 de outubro de 2008




Meto cartuchos ao umbigo de 400 balas gastas. da pólvora seca. resta-me esse teu
olhar tão desprendido de um parthenos à funesta prisão da vida.

Sem risco da existência de um eratz divino vives livre…

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E hoje cresci um pouco mais
a vida já me permite dizer "Nunca mais"...
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Hit the road Jack - Ray Charles

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Triologia - I




rasgante Tempo que não me engoles. que intensificas em dor os picos de ampulhetas em ponteiros. marcas as mãos que não mentem a passagem de Khronos. que se fazem para mim olhos na incapacidade de ver. assim fazes corpos gasosos que em Kairos foram gozosos na louca ternura dos anjos.

na sombra eu irei perguntar todos os meses para ecoar todas as horas, minutos e segundos se já morreste.
se eu tivesse tempo de privar com o tempo, seria uma criança de colo sem tempo. Éon de gente.




Desfeito está o que se fez fora de ti, oh Tempo!



Acordai - Coral de S. Domingos

quarta-feira, 8 de outubro de 2008




Sei que não sou praia e que tu nunca serás a onda que me beija o corpo.

Sei que não sou vento e que tu nunca serás a nuvem que me cobrirá de branco e algodão.

Sei que não sou cidade e que tu nunca serás o tempo que me construirá mais um bairro.

Sei que não sou flor e que tu nunca serás a cor que me pintará os aromas.

Sei que não sou terra e que tu nunca serás a água de me penetrar a alma e me fazer fecunda.

Sei que não sou verso e que tu nunca serás a palavra que me levará para longe.

Sei que existo. E que existes. Apenas.









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em simples palavras ___________________________________

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Vi medusas a dar a costa como entulho.

E pensava:

Os anjos reunem-se ao pôr-do-sol para ouvir o mar...






La Mer - Juliette Greco




* concerto da Juliette Greco dia 16 de Outubro pelas 21h no CCB

quinta-feira, 2 de outubro de 2008




Despetalar os dias crescentes de desapegos e dar-se à entrega de vácuos cadáveres a necrófagos. Abandonar-se no desgaste de corpos para escoriar o traço mnésico. Corroer em ácido clorídrico a memória de ti.

Paradoxalmente obsto o tempo. Afinco essa catálise de formol em reacção da derme em nítrico.

E vejo-te na reprodução dos padrões de sempre. Daqueles que perfazem as antigas e novas historias em cartões de apresentação. E pensar que de especial há no mesmo guião que só se mudam os agentes?!
Nem sépalas nem cálice ficam para beber esta cicuta, que teimosamente guardo. amo. fico.



… a única inocência é não pensar

é deixar entre mãos...





















































Fernglänzend - Wim Mertens



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