“Poderias mergulhar como só um bloco no nada para onde vão os mortos: consolar-me-ia se me legasses as mãos. As tuas mãos subsistiriam isoladas, separadas de ti, inexplicáveis como as dos deuses de mármore que se tornaram a poeira e cal das suas próprias sepulturas. Sobreviveriam aos teus actos e aos miseráveis corpos que acariciaram. Não mais serviriam de intermediários entre as coisas e ti; elas próprias seriam transformadas em coisas. Voltariam a ser inocentes, pois já não estarias presente para delas fazer tuas cúmplices (…) [já não me deixariam] cair como uma boneca partida(…) mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas(…)”
(Marguerite Yourcenar in Fogos, p. 52)
Cortejar a morte
Morte branca polida em cinza
Adular-te num papel resignado de simples leitora
como voyeur e como masturbadora
enobrecer o ignóbil aparelho do suplício
Queria ser Apolo e vejo-me em Dionísio
abraçar a noite por estar cansada do dia
cansada por não poder abraçar o mundo
Em silêncio a cumplicidade se faz raiz
como cartas quotidianas. como a morte da vida
porque toda a terra é uma prisão
revirar vidas para ser força de ventre
Sinto-me a sair
a parir para dentro
E volto ao tempo
tempo dado
não foi o tempo de juntar os malafeitos
torna-se tudo tão imperfeito do real
E vejo como presa estás
ao desencaixe de viver angustiantemente
palavras sem gesto




