“Poderias mergulhar como só um bloco no nada para onde vão os mortos: consolar-me-ia se me legasses as mãos. As tuas mãos subsistiriam isoladas, separadas de ti, inexplicáveis como as dos deuses de mármore que se tornaram a poeira e cal das suas próprias sepulturas. Sobreviveriam aos teus actos e aos miseráveis corpos que acariciaram. Não mais serviriam de intermediários entre as coisas e ti; elas próprias seriam transformadas em coisas. Voltariam a ser inocentes, pois já não estarias presente para delas fazer tuas cúmplices (…) [já não me deixariam] cair como uma boneca partida(…) mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas(…)”
(Marguerite Yourcenar in Fogos, p. 52)
Cortejar a morte
Morte branca polida em cinza
Adular-te num papel resignado de simples leitora
como voyeur e como masturbadora
enobrecer o ignóbil aparelho do suplício
Queria ser Apolo e vejo-me em Dionísio
abraçar a noite por estar cansada do dia
cansada por não poder abraçar o mundo
Em silêncio a cumplicidade se faz raiz
como cartas quotidianas. como a morte da vida
Fazer-me em rigor de afectos
porque toda a terra é uma prisão
revirar vidas para ser força de ventre
Sinto-me a sair
a parir para dentro
E volto ao tempo
tempo dado
não foi o tempo de juntar os malafeitos
torna-se tudo tão imperfeito do real
porque toda a terra é uma prisão
revirar vidas para ser força de ventre
Sinto-me a sair
a parir para dentro
E volto ao tempo
tempo dado
não foi o tempo de juntar os malafeitos
torna-se tudo tão imperfeito do real
E vejo como presa estás
ao desencaixe de viver angustiantemente
palavras sem gesto

19 comentários:
em
( ______ ______ )
bem redigido!
encantada :)
a prisão de um vício ou o vício emprisonado no teu verbar. Deixemos as angústias de lado.
beijo
"parir para dentro" ... "porque toda a terra é uma prisão"
.
sofrer e abster. quiçá por conta de um bem maior...
são estóicas
as palavras sem gesto.
.
abraço.te
Palavras da interioridade. Belas.
"...mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas"
Mas estas não são as tuas mãos nas minhas. Meros simulacros - mais gesto, menos mão.
Palavras sem gesto, gesto sem mãos. "Tudo tão imperfeito"...
Quero-te de volta a ti. E quero as tuas mãos de volta às minhas.
Luz
A palavra é já um gesto da viagem para um dentro, que também é um fora. Uma reviravolta, uma bofetada no escuro, é já muito o que podemos fazer...
Bj.
Apaixonei-me por esta escrita e fiquei sem palavras.
Bj
Na "força do ventre" as mãos se desenham e rasgam
o sonho é raíz
e o amor ganha asas...
São os dedos que tecem o fruto
e aos lábios dão cor.
São eles que traçam e escrevem "caminho de terra" em parto de dor...
abraço
____interioridades que explodem, transbordam, rasga-se a carne para se dar vida à alma.
e
M.Y. a Diva.
Um beijo enorme
muito.
"POUR LA SOUFFRANCE. LA CONNAISSANCE"
__________
um beijo
enorme, imenso
Palavras em que me perco(achando-me) sempre que aqui venho. **
dois registos absoluta mente
DIVINOS
onde a lucidez da escrita se entrechoca num angustiante quotidiano
.
um beijo
Essas mãos com esses cigarros estão uma coisa sem explicação!
Uma música lindíssima, um texto tão profundo e umas fotos tão rascas...
Tira-me isto já daí...:-))
(Irritas-me!)
Bjos,
Luz
Sinto o texto. Só isso.
D.
Um poema muito bem escrito.
Gostei!
cumprimentos
Poema dilacerante. Por isso mesmo, forte.
E as fotos são muito boas.
As mãos têm sempre tanto para contar... para dar...e para tirar...
Para segurar e para largar.
As mãos como a única hipótese de estátua, onde o tempo esculpiu todos os instantes que se agarraram.
Bj :)
... a
in-ven-tar de-va-ga-r o teu
nome,
gostei de ler um pouco dela. obrigada sofia
"fazer-me"
de ventre
angustiante mente aberto
contido
o gesto
______
forte
vivo
maré
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